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Blog de jrrsantos1
 


 

Propriedades do Tempo

 

È próprio do tempo passar,

È próprio do tempo correr,

È próprio do tempo matar,

È próprio do tempo morrer,

È próprio do tempo saltar, parar de funcionar, amanhecer, anoitecer,

È próprio do tempo esfriar,

È próprio do tempo aquecer,

Também é próprio do tempo juntar, plantar, crescer e porque não? Retroceder ou avançar com os horários de verão;

È próprio do tempo conhecer ao nascer, reconhecer ao viver, e por fim, quando estamos velhinhos esquecer.

È próprio do tempo acordar e adormecer.

È próprio do tempo levantar e demolir, construir e desconstruir;

È próprio do tempo fazer o saber, mas não do sábio fazer o “Tempar”

È próprio do tempo morrer, mas é próprio do tempo matar.

È próprio do tempo domar, amarrar, domesticar.

È próprio do tempo ensinar, e é próprio do tempo vencer.

E se até aqui o tempo foi seu amigo sorria e saiba também...

Que é próprio do tempo gostar de você.

 

J.R.R.SANTOS



Escrito por jrrsantos1 às 14h13
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Raziel
O primeiro contato


Havia um menino. Ele ouvia vozes, vozes de anjos.
E os anjos diziam coisas que ele não conseguia entender. Diziam coisas sobre uma criança e sua ligação com o fim dos tempos, diziam coisas sobre seu pai, morto segundo sua mãe num acidente de carro pouco tempo antes dele nascer, mas os anjos diziam que ele estava aprisionado para toda eternidade por ter cometido o pior crime contra O Mestre.
E o menino tinha medo, naquela época com apenas quatro anos de idade ele uma vez indagara sua mãe.
- Mãe... - ele dizia. - Por que eu ouço vozes?
- Que vozes você ouve, Raziel?
- Eu ouço anjos.
Raziel nunca vira a face de sua mãe tão mudada quanto naquele momento peculiar. Sua mãe era Eva e já havia notado que seu filho era diferente das outras crianças, quando na igreja Raziel se encolhia entre os bancos e chorava gritando para que parassem de falar aquelas coisas. Eva já sabia que o pequeno Raziel tinha um grande destino pela frente e que o pai da criança nunca seria perdoado pelo que fez. Raziel cresceria sem pai e Eva sabia que estava ameaçada pelos anjos.
Raziel não poderia existir, só o fato dele estar vivo desafiava todas as leis celestes e agora Eva faria de tudo para que o garoto crescesse com saúde.
- E o que os anjos falam, Raziel?
- Dizem... - Falou Raziel derramando uma profusão de lágrimas pelos olhos - Dizem que meu pai foi um traidor, que ele nunca será perdoado e está aprisionado para sempre num pilar... e... e...
Raziel começou a chorar mais e mais alto.
- Diga filho... Termine!
- E dizem que nós devemos morrer...
Eva abraçou seu filho com força.
- Raziel, nós temos que partir, mas ouça bem o que sua mãe lhe dirá vou levar você para o único lugar em que vai estar protegido de verdade e provavelmente não nos veremos por um tempo, mas você merece saber.
Ela resolveu contar, Raziel só tinha quatro anos, mas entendia melhor das coisas do que muitos adultos.
- A verdade é que seu pai era um anjo. Ele e eu nos apaixonamos e eu fiquei grávida de você, mas os filhos de um anjo com um humano são abomináveis para a raça do seu pai e a paixão proibida é o pior crime para eles que caçaram o seu pai e o levaram para onde não poderíamos nos ver nunca mais, eu achei que ele estava morto e que os anjos não souberam que eu estava grávida, mas agora você os ouve e eles a você nós não temos escolha eles sabem que você nasceu e farão de tudo para nos separar, o que eu não irei permitir.
Uma sombra passou pela janela, e o som de asas batendo assustou o pequeno Raziel.
- São eles.
Eva colocou seu filho no colo, pegou as chaves do carro e abriu a porta da sala que dava para a rua. Quase no mesmo instante as luzes da rua se apagaram, Eva chegou ao carro, abriu a porta e colocou o sinto de segurança em Raziel, ligou o carro e deu partida, retirando-o da calçada.
Mas havia um homem parado no centro da rua, um homem de olhos dourados.
- Bergar! - exclamou Eva.
- Eva, você deve morrer pelo que fez.
Quando Bergar falou os vidros do carro estouraram, a mãe e o filho se abaixaram para não serem atingidos pelos cacos que voavam em todas as direções. Eva acelerou o carro contra Bergar e ao passar por ele o anjo pula por cima do carro.
- Desculpe Eva, ordens são ordens. - Bergar levantou a mão e uma força desconhecida parou o carro.
A mãe pegou o filho do banco e o pos em seu colo, saindo do carro em seguida.
- O que você quer? Já não arruinou minha vida o bastante?
- Sua vida vai contra nossas leis, o que aquele traidor fez foi quase arruinar toda a nossa raça, nem você e nem essa aberração podem viver.
- Vocês não podem simplesmente nos matar Bergar, vocês servem á Deus!
- Eu sirvo a um propósito maior Eva, não posso deixar esse inseto estragar meus grandes planos para a humanidade, isso é um Adeus.
- BERGAR NÃO!
Uma luz branca reluziu, o sol descera a terra, a luz da vida, a luz da morte, a poderosa luz dos anjos. Quando a luz se foi lá estavam Raziel e Eva Cristophori, Raziel debruçado sobre o corpo inerte de sua mãe, tentando debilmente despertá-la.
- Ela não vai acordar, aberração, e logo você vai se juntar a ela.
Bergar levantou sua mão contra o pequeno Raziel mas de repente ele começa a ser tomado por chamas azuis.
- Não! Não é possível! Como ele descobriu?
Bergar, o anjo grita como se sua alma estivesse sendo consumida pelas chamas azuis que começam a carbonizar seu corpo, surgem então suas asas, negras se queimando e sumindo aos poucos, mas ele ainda está de pé, e vai andando lentamente na direção do menino.
Raziel, perplexo demais para fugir, vendo ali deitada sua mãe, sem poder fazer nada, lágrimas caindo de seus pequeninos olhos negros sente algo quando Bergar lhe aponta o que restara de uma de suas mãos, num desesperado último golpe contra o herdeiro de Eva.
- Uma parte sua vem comigo menino! A parte mais importante! Tomo-lhe agora o que diferencia a sua raça de qualquer outra de qualquer plano, sem isso Raziel Cristophori, você nunca será capaz de interferir nos planos do meu real mestre! HAHAHAHAHAHAHA!
Um fio tênue e brilhante deixa os lábios de Raziel, metade da mais bela de todas as criações de Deus, metade da alma de Raziel se separa de seu corpo e voa para a mão de Bergar, antes que este sumisse de vez deste plano de existência e some com ele.
O menino desmaia e é resgatado por um homem pouco tempo depois, certo homem muito bem vestido comum terno Armani e uma gravata vermelha.
- Eu sou Gaduone, menino Cristophori, e você vale muito para mim e para o alto para morrer aqui - Falou o homem com Raziel desmaiado no colo. - O alto descobriu a traição de Bergar graças a informações que eu lhes vendi. E você será treinado por nós, a Mão Esquerda de Deus um dia irá requisitar os seus serviços e você terá que estar pronto.

E assim Raziel Cristophori perdeu metade de sua alma, e junto, a memória de sua mãe Eva e, conseqüentemente, a memória do único amor verdadeiro que jamais tivera, algo lhe faltava e ele viria a descobrir isso da pior forma possível, mas ainda haveria muitas coisas a se passar até que descobrisse algo sobre sua vida antes de se tornar o melhor dos caçadores da Ordem da Mão Esquerda de Deus, um braço secreto armado da Igreja católica devotada a caçar e destruir as ameaças sobrenaturais que os humanos sofrem nas mãos de demônios e outras criaturas sombrias.

Aqui começa a história do homem que se tornou lenda, aqui começa Raziel.

FIM.

 



Escrito por jrrsantos1 às 02h37
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MAIS UMA NOITE


Eu saio do bar. O frio é cortante, olho no relógio. Duas da manhã, cedo. Arrumo meu sobretudo e ajeito meu chapéu, não há muitos carros do lado de fora, estou adiantado, dá tempo de sobra para ir andando, são só duas quadras e meia.
È a noite de sexta-feira de uma Nova York de 1945, enquanto nossos pais e irmãos voltam da guerra feridos, mutilados e traumatizados os chefes do crime organizado brigam pelo controle das ruas, os cassinos fervem, as putas também, o dinheiro rola solto enquanto os bêbados bebem, os viciados jogam, as prostitutas dão e os policiais estão cegos, alheios a toda essa movimentação, todos muito bem pagos.
E por trás de tudo isso um chefe da máfia sorri, nadando numa maldita piscina cheia de grana como o Tio Patinhas. E no momento eu trabalho para um deles. Enquanto eu ando um bandido ataca e toma a bolsa de uma mulher, ela vira pra mim pedindo socorro enquanto o ladrão sai correndo, eu passo direto por ela “perdão senhora, mas o herói que você espera não vai aparecer” eu penso, mas não digo, só sigo meu caminho, a não ser por dinheiro eu prefiro não interferir nos assuntos da vida. Tenho um trabalho a fazer, e nada vai me parar por enquanto.
As janelas estão fechadas, na rua apenas alguns se arriscam fora da segurança dos seus lares, os criminosos estão a espreita, eu os acho corajosos, não é toda noite que algum assaltante age nas áreas da máfia. Eu acendo um cigarro e levo a fumaça celestial aos meus pulmões, passo por um cartaz do Tio Sam apontado o dedo para mim e dizendo “Precisamos de você”, resquícios de um conflito acabado. Os rádio-noticiários dizem que os Russos estão a alguns quilômetros do buraco onde Hitler se esconde, não que eu me importe com isso, já vi os estragos da guerra nas ilhas do Japão, desde que voltei não sou mais o mesmo.
Lá está ele, do outro lado da rua, um restaurante italiano, famoso nos arredores daqui da cidade. Eu abro a porta e um sino anuncia minha entrada, o restaurante está mais cheio do que o esperado, meu olhar foca em cada detalhe, na família sentada numa mesa próxima do banheiro, nas crianças, nos casais, mas um único casal me chama a atenção, um homem com terno de linho azul com a mulher loira de branco, a mulher me olha assim que passo para dentro sem retirar meu sobretudo ou meu chapéu, o homem sentado com ela nem dá mostras de se interessar com mais nada a sua volta a não ser com seu prato de espaguete, com passos lentos eu me aproximo da mesa do casal e em momento nenhum a mulher tira os olhos de cima de mim, talvez ela saiba o que eu tenha vindo fazer aqui, minhas mãos não deixam os bolsos, eu reparo nas marcar roxas em seu olho esquerdo cobertas com pó de maquiagem, o covarde bate nela.
A medida que me aproximo os olhos dela crescem mais, o que de fato torna o meu trabalho mais dificultoso, mas eu não paro, chego em frente a mesa do casal, é quando finalmente o homem tira os olhos do prato e seu olhar passa de sua mulher atônita, para mim, eu olho bem fundo nos olhos dela e sorrio, retiro a mão direita do bolso, meu revólver 38 está destravado.
Primeiro tiro, e antes eu ainda posso ver o terror nos olhos dele frente à morte certa, essa é uma das coisas que mais me admiram no meu trabalho, eu acerto ele no peito e ele cai para trás na cadeira enquanto o resto do restaurante começa a gritar menos ela.
Segundo tiro, e eu dei um passo para o lado para ajeitar minha mira no homem, esse acerta a bochecha e fura os dentes, os pais tentam proteger seus filhos e impedir que eles vejam o que está acontecendo. Os outros quatro tiros vão todos nele, eu descarrego minha pistola e a jogo no corpo do homem, dou uma bela olhada no trabalho concluído, depois olho para ela, coitada, está em estado de choque, acho que ela não consegue pensar se o que eu acabei de fazer é bom ou mal, mas não pretendo descobrir sua conclusão, eu tenho a minha, o trabalho foi feito, eu ajeito meu chapéu, coloco as mãos dentro do sobretudo e me dirijo a saída do restaurante, o carro já está lá, me esperando, eu entro e me vou satisfeito, afinal de contas essa foi pra mim só mais uma noite. Ou não...


FIM.


Escrito por jrrsantos1 às 21h50
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BLACKOUT


Descobri! Era tão óbvio! Não sei como eu não havia me ligado, estava na frente do meu nariz o tempo todo e eu já sabia! Mas mesmo assim isso não me impediu de sofrer o impacto da descoberta. Um zilhão de emoções me invadiram enquanto eu, em pé naquele quarto escuro lia aquela carta de assassínio onde ela,deliberadamente se entregava, pouco antes de matá-lo. Quando peguei este caso eu sabia que, querendo ou não eu me envolveria, mas dessa vez eu fui longe de mais...
Será que ela planeja me matar também? Isso explicaria sua conta recheada nas Ilhas Caiman, seus pais teriam mesmo morrido naquele acidente de carro, ou teriam sido vítimas das tramas da fila gostosa-maníaco-depressiva? Naquele momento levei a mão ao cabo da minha 38 e me senti meio psicopata imaginando que, se ela pensava em me matar, eu não teria alternativa, senão matá-la primeiro.
Ouvi lá em baixo as sirenes, fui burro! Como não pensei nisso antes? Ela deve ter chamado a polícia, tem amigos na delegacia, provavelmente já deve ter dado pra metade do contingente, senão pro próprio delegado, quiçá o governador! Merda! Eles cercaram o prédio, vou ter eu dar uns tiros se eu quiser sair daqui sem algemas, essa noite o sol não nasce quadrado pra mim! Ou eu não me chamo...
TOC TOC TOC!
- Abram a porta! È a polícia!
Para mim uma certeza, para eles uma sentença. Um pé na porta quebra as dobradiças, não quis nem ver a cara do infeliz, dei-lhe um soco no nariz assim que piso no quarto, ele caiu para trás, em cima do parceiro, me dando tempo mais do que necessário para atirar. Mirei no colete, não queria ser obrigado a matar nenhum policial, eu já fui um, sei como é, a gostosa entra na delegacia e com aquela irresistível voz diz que há um bandido em seu quarto, loira, vestido branco, não há nem como negar, você reúne uma equipe e parte pro local, você quer pegar o bandido porque se o fizer ela vai dar pra você, é simples., mas o bandido em questão é ela, e não você, assassina, vadia!
Eu saio para o corredor, tinha mais um na escada, quase me acerta, furou meu sobretudo, atirei nele, colete de novo, desci a escada preparado, estão sempre em pares, deve haver mais um cobrindo a saída, ouviu os tiros, deve estar desesperado, fácil, eu guardo a pistola, só tenho mais quatro balas, mais do que suficiente para estourar os miolos dela, eu sei, mas queria garantias. Lá está ele parado na entrada do hotel o último tira, se mijando quase, desde quando eles deram pra contratar crianças? Quando eu entrei na força eu tinha quase o dobro desse menino, ele me olha em dúvida, sou um bandido ou um hóspede do hotel? Demorou demais, eu chego perto,dou-lhe uma coronhada na nuca, desmaio o garoto, saio do hotel sorrindo, ainda não matei ninguém, ainda!
Entro no meu carro, piso fundo e sigo para o centro da cidade, eu sei bem onde aquela vadia está, enquanto desço as ruas em alta velocidade os reforços policiais passam por mim, na direção contraria seguindo para o hotel, pobres amadores. Ele está lá, dançando, crente que neste momento eu estou em alguma cela suja da cadeia levando porrada na cara de um tira qualquer, ela mal pode esperar, quero olhar na cara dela antes de lhe fazer as últimas perguntinhas e fechar o caso com uma bala na testa dela.
Ah! Quase me esqueço! Acendo um cigarro, agora sim, estou mais do que pronto. Meia hora depois e eu paro o carro bruscamente num hidrante no centro da cidade e vejo um guarda de trânsito vir na minha direção.
- Vou ter que multá-lo, Senhor! – Ele diz.
- Pois então que multe, faça seu trabalho homem, e vê se não atrapalha o meu! – eu respondi, e ele entendeu.
O bar onde ela fazia Stripper ficava do outro lado da rua. Eu atravesso, a mão no revólver, são dez da noite e o bar ainda está vazio, eu chuto a porta e atiro no copo que o dono do bar levava a boca, o copo quebra, a mão dele sangra, ele me olha estupefato, ele me conhece de outros carnavais, sabe muito bem do que eu sou capaz.
- Onde ela está? – sucinto e direto, do jeito que eu gosto.
Ele não me faz questão de responder, apenas aponta para o segundo andar, ela está no quarto, mal a noite começa e ela já tem clientes, eu subo rápido, antes que ela saiba da minha entrada. O quarto dela é o maior, não tem erro, já estive nele cerca de nove vezes nos últimos quatro dias, enquanto ela me seduzia, a filha da...
Eu chego à frente da porta dela e a chuto, só para não perder o costume. Assim que eu o faço alguém cai da cama e se levanta rápido totalmente nu, cobrindo suas partes íntimas enquanto ela está na cama o cobertor puxado até o pescoço, eu aponto a arma para o cara, foi engraçado vê-lo sem saber se continuava tapando suas partes intimas ou se se protegia da mira do revólver.
- Sai. – eu digo para ele e ele faz menção de pegar suas calças, jogadas do lado da cama. – Não. – eu digo e ele para, ainda na mira. – Vá nu.
E o homem, coitado, tremendo da cabeça aos pés deixa o quarto. Nu.
E lá estava ela, como eu a conheci, como veio ao mundo, e com medo de mim. Eu seria rápido, não queria demorar.
- Me conte a verdade.
- Você quer a verdade? Então eu vou te contar toda a verdade, não fui eu, o assassino que você procura está bem longe daqui e se chama...

TZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ
TZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ
TZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ

Era um bom filme. Uma pena, minha luz acabou.


Escrito por jrrsantos1 às 17h26
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SONHOS


Essa noite eu tive um sonho.
Sonhei porque dormi. Enfim depois de anos, décadas se bem me lembro, eu consegui pegar no sono, mas fazer o que, são os ossos do ofício, como dizia meu falecido pai, ele trabalhava como maquinista do metrô no turno da noite. Eu sou escritor, mas daqueles tradicionais, movidos a cafeína e laptops. Amo o som das teclas do computador, sempre amei o som que elas produzem, desde as antigas máquinas de escrever, minha mãe tinha uma e a usava para bater as receitas de bolo pro final de semana, e eu ficava petrificado, hipnotizado enquanto ela escrevia.
Até que um belo dia meu irmão quebrou nossa única máquina de escrever, e eu quebrei o meu irmão. Quando pude finalmente ter a minha o computador já havia sido lançado e nossos amigos riam de mim. Mas eu dei a volta por cima e escrevi, escrevi, escrevi por cinco dias seguidos, quando terminei me dei conta dos 7 quilos que eu havia perdido, e perdi mais do que isso, havia me adaptado a não dormir, quando eu deitava na cama ouvia o som da máquina batendo e aquele lindo PIM! E o PIM continuava até que eu me levantasse e fosse escrever. Mas com isso eu havia ganhado uma coisa também, eu havia ganhado meu primeiro livro, um romance policial, ganhei meu patrocínio, ganhei meu primeiro computador e ganhei minha independência financeira, mas nunca mais eu consegui dormir direito, mas o sono em si não me fazia falta alguma. Os sonhos é que me faziam falta. A viagem da alma, a fuga dos perdidos, o verdadeiro relaxamento do corpo e da mente, as pessoas costumam só perceber a real falta que algo pode fazer depois de perdê-lo. Eu só percebi a falta dos sonhos depois de perdê-los.
Mas naquela noite eu fui feliz, eu finalmente peguei no sono, ao acordar olhei pro relógio, dormi cerca de duas horas, não é muito, mas para mim foi uma vitória, a luz no fim do túnel. No sonho eu caminhava por uma rua tortuosa e olhava para um cartaz gigante de Nietzsche que não parava de reclamar do exagero de idealismo metafísico em mim, enquanto dizia que Freud era gay e que refrigerantes causavam-lhe gases, tomando uma garrafa de quatro litros de Coca-Cola. Eu então pegava na mão de Tarsila do Amaral e caminhava gritando a ela que os Comunistas estavam chegando e que tínhamos que correr, porque o Papa poderia ser levado e interrogado por Jack Bauer (o que de fato seria o seu fim, pois Jack Bauer só não é pior do que ele mesmo depois de perder duas ceroulas), enquanto nós corríamos um senhor que me pareceu Dalai Lama estava parado na calçada com uma placa no peito com os dizeres: “O fim está próximo! E a novela das oito também!” e olhando-o eu sentia uma extrema paz interior e Tarsila dizia “Que pena! Eu realmente gostava da novela!” e se jogava do Empire States alegando não saber mais viver sem sua única fonte de entretenimento após o Jornal Nacional. Eu lamentei, mas sabia que devia correr, pois não podia me arriscar a deixar a televisão ligada com aquela chuva, um raio poderia cair e queimar meus aparelhos eletrônicos.
Foi aí que meu irmão veio pilotando uma máquina de escrever do tamanho de um camelo e pedindo que eu montasse na garupa, pois ela estava sem freio, mas eu dizia, e é fato, que uma máquina de escrever não tem garupa e não conseguia subir, bem em tempo! Porque na esquina ele batia em uma árvore que desesperadamente pedia “Não ao Aquecimento Global!” com uma garota de dreads vermelhos empoleirada em um galho dizendo que não desceria até que fosse levada a um restaurante genuinamente vegetariano e rindo para dois meninos e uma menina que jogavam animados RPG sentados próximos a árvore.
Eu ainda não sabia por que corria, mas já estava quase lá. E uma borracha do tamanho de um cachorro me apagava a perna esquerda, eu caía e um gigante nos céus pedia desculpas por estar ouvindo Nelson Cavaquinho e criando sua nova animação em 3D. Ele me deu uma mãozinha, me deixando perto de Nagasaki a contragosto, pois eu sabia o que estava para acontecer ali, mas resolvi ficar para beber uma cerveja com os nativos muito simpáticos que diziam “A melhor parte do show ainda está por vir!”.
E veio! Um pontinho no céu foi crescendo até que explodiu e varreu a cidadezinha, os nativos simpáticos e a garçonete gostosa que trazia aquela cerveja oval. Ficou tudo branco e eu me vi na minha frente. Tomei um susto, eu estava lindo! Quase me dei um beijo, mas o outro eu levantava a mão e dizia “Gostou?” e eu dizia “Claro!” e ele falava “PIM!”.
Aí... PIM! Eu acordei suado e gritando:
“EU SONHEI! EU SONHEI!”.
Mas que sonho maluco! Pensei, mas eu estava feliz, porque essa noite eu tive um sonho.

FIM.


Escrito por jrrsantos1 às 01h24
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HOMEM DE SORTE

- Peitão! Tem, tem peitão, bundão! Éééééé... Gostosa... Come que é? Olha Almir, olha só que mulher gostosa cara! Mas... Mas... Num te interessa Almir? Como num te interessa cara? Olha lá, olha lá... Ihhh... Perdeu á lá, já foi... Ôo Miguel! Me vê mais uma cerveja aí cara! Trás uma pro meu mano Almir aqui também, ele ta precisando!
Era sempre assim... Todo dia a mesma merda... Eu e Nélio no bar, passava uma mulher e ele sempre falava a mesma coisa... Gostosa...blá, blá, blá, Peitão, blá, blá, blá, olha Almir! Mas eu nunca me interessava, estranhamente era muito difícil que algumas daquelas belas transeuntes, não ouso dizer o contrário, mesmo levando em conta o peculiar gosto de Nélio por mulheres de todos os tipos, cores, credos e crenças (ele gosta também de uma certa música de Martinho da Vila que, segundo o próprio, lembra-lhe sua vida), enfim, me interessasse.
Desde Ela, a garota dos All Star’s, nenhuma outra me despertava os “sentidos” por assim dizer. Mas é claro que você, leitor, não está familiarizado com tal história, e é por isso que a partir daqui eu narro o que aconteceu na melhor noite da minha vida: a noite em que eu conheci aquele anjo de All Star...
No bar aquela era uma noite como outra qualquer, Nélio me enchia o saco com as mulheres que passavam enquanto bebíamos, cantávamos, batíamos os pés e brigávamos, o que por aquelas bandas nada era mais tradicional, quando as portas se abriram com violência e a luz vinda lá de fora incidiu sobre as costas dela. O silêncio foi rei naquele momento enquanto as bocas eram puxadas para baixo pela gravidade algumas mil vezes mais rápido do que fazia com os seios das velhas senhoras.
E foi em meio ao silêncio que ela entrou, seus passos eram imperiais, impecáveis, ela flutuava mais do que andava enquanto vinha em minha direção, sacudiu os cabelos castanhos ondulados como uma Bondgirl apontou para mim e disparou: “Eu quero você”, se isso fosse um filme naquele momento haveria um close em sua boca, quando aqueles lábios insaciáveis formavam aquelas que viriam a se tornar as três palavras mais felizes da minha vida, aquele rostinho branco e ligeiramente avermelhado, porém impassível me mostrou que ela não estava de brincadeira, era sério, a tão-mais-linda sinceridade da minha vida... Minha região baixa gritava de alegria, fervia de felicidade enquanto minha cabeça teimava em querer me fazer pensar, ela me queria, porque? Algo estava estranho, ela, única e eu? Porque?> foi o que acabei perguntando, tremendo, inseguro.
Naquela hora ela poderia ter simplesmente se virado, ido embora, porque ela não se foi? Teria sido tão mais fácil! Mas foi com uma paciência de Madre Tereza de Calcutá que ela respondeu: “Por que eu quero você, agora, você tem um caminhão não tem?”
“Sim, tenho”
“Então venha comigo”.
Aquelas mãos esguias, delicadas e firmes se prenderam em meu pulso e me tiraram do banquinho como se eu fosse um boneco de palha, uma Emília sem vida e me tiraram do bar. È claro que naquela hora eu estava preocupado de mais comigo mesmo para reparar na reação dos meus companheiros.
Dentro do caminhão, sem nenhuma palavra ela me subjugou e fez amor comigo de forma selvagem, sem tirar seus tênis All Star, depois eu acordei vestido, uma mala do meu lado, no lugar onde deveria estar meu caminhão. Ela se foi como se veio, brincou comigo como se eu fosse um personagem de Monteiro Lobato, ela roubou meu caminhão. E a partir desse acontecimento tudo mudou pra mim, menos os dois no bar com Nélio. Durante aquele lindo ato no caminhão naquela noite eu vi a pulseira em forma de tatuagem no ante-braço dela, com o nome de outro homem. “Homem de sorte” foi tudo o que me restou pensar abandonado naquele estacionamento... “Homem de sorte”.


Escrito por jrrsantos1 às 17h25
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Vende-se Felicidade

Eu estava duro! Realmente duro e endividado, fugia feito diabo da cruz, dos cobradores, das cartas da Light, da Telemar e dos bancos, apenas a visão de um Itaú ou Banco do Brasil me causavam tremeliques, âncias de vômito e vontades súbitas de ir ao banheiro. Tudo isso porque eu não tinha dinheiro, apenas lembrando: eu estava duro!
Já não suportava chegar em casa, após as sagradas 8 horas de trabalho (Santa Revolução Russa! Santa Abolição da Escravatura!) e ligar minha TV no Jornal nacional para ver notícias como: "A Bovespa teve hoje um aumento exponencial de 5% trazendo incríveis 3 bilhões de Dólares aos cofres públicos", maravilha! E eu continuava duro!, "Fluminense ganha Flamengo por 5 a 0 no Campeonato Carioca", e eu fiquei feliz, mas eu continuava duro! ou mesmo "Vencedor do BBB 115 leva pra casa a fortuna de 1 milhão de Reais!", e eu, infelizmente, continuava duro!
Aí então o leitor pode perceber meu estado mental e capital, devido ao maldito FMI e aos impostos com juros, taxas e sobre-taxas e sobre-sobre-taxas que temos que pagar ao "Rei da Selva" todos os anos e aqueles malditos políticos ladrões ainda querem que a gente não tenha mais filhos! Onde já se viu?
Trabalhamos feito condenados para que eles roubem milhões todo ano para sustentar seus filhinhos nas Universidades particulares e suas festinhas com fetiches e prostitutas e eles ainda querem proibir que um pobre condenado como eu (mas sem TV, no que ele já se encaixaria numa pior situação) não tenha relações sexuais com sua mulher!
Eu fico pasmo com essas e outras! E vocês? Não? Bom, eu sim, foi com minha mulher gritando na cozinha com o Pedro e com a Samanta e eu segurando os Gêmeos no colo e vendo a novela das Oito que eu resolvi mudar minha vida. Quer saber! Pensei eu, já que ninguém lá em Brasília se importa mais, eu também não vou me importar! Eles só querem saber de roubar dos pobres e enriquecer a Burguesia, eu cansei e vou pensar somente em mim mesmo, o que é exatamente o que eles não querem que o Operário faça, mas eu li Lênin!
Terminado o jantar e o programa humorístico, as crianças na cama e minha mulher vendo filme no canal da "GatoNet" entrei na nossa sofrida Internet , também "gato", e foi num site de compras e vendas que eu vi a luz para o fim dos meus problemas! (Nota: eu ainda estava duro!).
Aquele site era o paraíso das compras e vendas online em cima da página anunciava:

SUÍTESHOP.COM
COMPRAMOS E VENDEMOS DE TUDO

E sim! havia de tudo naquela maravilha da Globalização, é nessas horas que você começa a pensar... Mas que diabos eu teria de valor para que alguém se interessasse e comprasse? Minha mulher? Não, ninguém ia querer uma filha de portuguêses Behavioristas que não entendem ironias, até porque quando velha ela vai ficar igualzinha a mãe, e resolveu começar pela quantidade de filhos. Filhos! eu podia tentar vender um deles, um dos gêmeos pelo menos, ela vive trocando o nome deles, quem sabe se eu poupar ela de um? Não, acho que ela num ia gostar muito... O Pedrinho tem sido um mal menino! Deixa pra lá...
Tá legal, eu preciso de dinheiro, resolvi vender alguma coisa num site de compras e vendas online, mas tem um problema, eu num faço idéia do que oferecer! Passei cerca de duas horas na frente daquela tela ceia de cores e luzes do computador a pensar apenas no que eu poderia vender por um valor acessível as minhas dívidas e enquanto isso elas iam aumentando só pelo meu tempo no computador e pelo aumento do Dólar cotado na Bolsa de Valores de Bangkok pensei em tudo, mas infelizmente já tinha tudo lá, passei por cães e gatos, por cuecas usadas e brinquedos importados da Tailândia sem um braço ou uma perna e o pior! havia sempre alguém pra comprar aquelas porcarias! Desde bonecas Barbie até bonecas Bruna Surfistinha tamanho real 90, 60, 90 virgem!
Opa! Gostei da coleção Star Wars de Dvd's e camisetas, quanto é? Ah! 600 reais! mais do que eu conseguiria oferecendo o corpo para aqueles velhos tarados de Copacabana!
Procurei por coisas interessantes, exóticas e não havia nada que um idota qualquer não se propusesse a pagar um valor exorbitante. Exausto algumas horas depois no meio da madrugada percebi que havia algo muito estranho, toda minha vontade tinha ido embora, me deixado a bira do abismo, minha felicidade estava sendo sugada pelas dívidas e não havia nada que eu pudesse fazer quanto aquilo a não ser...MINHA FELICIDADE! Era isso! de tudo que eu já vi vendendo não há nada parecido! ninguém oferece um sentimento! seria algo novo, nunca antes visto! eu poderia ganhar milhões! resolvi escrever um anúncio assim:

VENDE-SE FELICIDADE!
VENDO MINHA FELICIDADE PELA BAGATELA DA QUANTIA QUE VOCÊ POSSA OFERECER!
GARANTO SERVIÇO RÁPIDO E DE QUALIDADE, VOCÊ NUNCA VIU NINGUÉM COM UMA FELICIDADE TÃO BARATA QUANTO A MINHA!

Assim então começaram os meus problemas e as minhas soluções como você, leitor, bem pode ver em poucos dias meu anúncio se tornou o mais lido de toda internet, mais lido até que "Mein Kampf" durante o nazismo, mais lido que Tolkien na Guerra do Vietnan, ou Harry Potter daquela mulher que o nome não me vem a mente agora. Enfim, meu anúncio virou um sucesso e iniciou-se um leilão por parte dos organizadores do site que me ligaram dizendo que ficariam com 5% do preço total da venda pela quantidade de pessoas que estavam entrando ao mesmo tempo e quase quebraram o suporte da página online. Eu concordei com um "humhum" porque bem na hora eu via a abertura ao vivo do leilão e o primeiro lance de 5.000 reais de um camarada com o pseudônimo de "Seu Zè".E foi subindo daquele momento em diante. Minha mulher e meus filhos ao meu lado gritavam e davam pulos de felicidade, Estamos ricos! Estamos ricos! eles gritavam enquanto eu ficava boquiaberto na frente daquela tela, ao vivo num canal o leilão passava num programa no estilo "Mil e Uma Noites" com comentários de um cara que ao falar me lembrava muito um apresentador gordo de Domingo a tarde, isso me irritava.
O leilão fechou em incríveis 500.000 reais do mesmo camarada que havia dado o primeiro lance.E sim! estávamos ricos daquele dia em diante, meus caros, nunca nossos telefones tocaram tanto, do lado de fora da casa, na rua, os vizinhos começavam a se juntar, abutres atrás da presa como sempre, fogos de artifício curriscavam os céus do meu bairro, enquanto carros de emissoras de TV lutavam por vagas nas esquinas e por espaço para tentar falar comigo. Advogados ligavam para os meus familiares oferecendo seus serviços e naquele momento o País estava ligado no Homem que vendeu a própria felicidade e ficara meio-milionário. Pessoas começavam a tentar fazer o mesmo, vendendo o amor, vendendo a tristeza, as virtudes, mas ninguém teve tanto sucesso quanto eu, para a própria sorte, como vocês bem entenderão ao final desta história.
Eu abri a porta da frente de casa e me senti como Nero, ovacionado e vaiado, amado e odiado, achava que mais amado até um tomate me acertar na cara, odeio tomates e nunca entendi porque as pessoas resolviam sempre por jogar tomates umas nas outras, talvez todos odiassem tomates tanto quanto eu, mas o fato é que: antes tomates do que melancias! repórteres quase me enfiavam microfones na goela abaixo, perguntas de todos os lados me atingiam como tortas de maça voadoras, com impactos variados, as vezes com pássas, as vezes com cereja, as vezes com tomates!
Não conseguiria responder nem que quisesse.
- Por que o senhor resolveu vender sua felicidade?
- O senhor está envolvido de alguma forma com a CPI do tomate?
- O que foi a Conjuração Baiana?
E eu respondia apenas:
- Baianação Tomateísta de Machado de Asís com Tiradentes!
Até a multidão se abrir. Eu ouvi um comentarísta dizer algo como "E acaba de chegar o comprador da felicidade!" com aquela voz do apresentador de domingo que lhes falei.
O comprador era um homem de altura mediana vestido com um terno branco e gravata vermelha, sobressaído da multidão, carregava uma maleta e se aproximou tanto que ofuscou meu olhos pela brancura de sua roupa, pensei se ele usava aquele novo sabão em pó do comercial e minha mulher pensou que com certeza ele usava o novo sabão em pó do comercial e que poderíamos comprar agora que estávamos meio-milionários.
Ele chegou bem perto, o comentarista disse: "E ele chegou bem perto!", ele mostrou o conteúdo na maleta e perguntou: "Tem certeza?" e eu disse "Claro!". Ele me entregou a maleta e me mostrou a mão, "Bom negócio", disse ele, e eu apertei-lhe a mão.
Senti na hora, enquanto ele sumia na multidão com um sorriso de orelha a orelha, eu havia perdido minha felicidade para um desconhecido em troca de dinheiro, eu poderia quitar minhas dívidas, poderia garantir a educação dos meus filhos e dar tudo o que minha esposa sempre sonhou, mas não conseguia me sentir feliz com a visão do futuro.
Dali alguns meses quitei minhas dívidas, aumentei nossa casa, dei tudo o que minha esposa sempre sonhou, ajudei a família e alguns necessitados e ainda sobrou dinheiro para garantir um fim de vida em paz, sem nunca mais ter que trabalhar, eu era chefe, tinha tudo o que queria na hora que queria, investi em nosso bairro, me candidatei a Vereador e ganhei, depois a Senador e ganhei, eu fui poderoso e podia ser ainda mais, continuei detestando tomates, claro, e podia mantê-los longe de minha cara com os subornos certos, mas eu nunca, nunca tive minha felicidade de volta e no fim da minha vida, deitado em uma cama, esquecido por Deus e pelo mundo, por minha esposa, de viagem na Europa e por meus filhos estudando nos Estados Unidos eu me arrependi de ter vendido aquilo que mais me era importante, aquilo pelo qual realizar sonhos era gratificante, e o comprador apareceu para mim nos meu últimos momentos, vestido do mesmo jeito, não mudara nada esses anos todos.
-V-você v-v-vai me devolver minha f-felicidade? - eu perguntei, velho, sem forças.
-Você se arrepende? - ele perguntou.
-S-sim.
- Eu estou aqui para levar você pro outro lado, e quando chegarmos lá eu te devolvo aquilo que comprei de você.
E ele me devolveu. Mas já era tarde de mais.


Escrito por jrrsantos1 às 00h37
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